Por falar em perdizes

Quem ver este vídeo http://www.youtube.com/watch?v=tsmFmOiKuhg poderá avaliar quanto era emocionante uma caçada em Mato Grosso, poderia ser comparada aos velhos safáris africanos.

 Caçadores de outrora falavam que na década de 50 ou 60 chegavam a abater numa caçada 500 perdizes nos campos de Maracaju. Naquela época  existia cerrado e capim nativo onde as perdizes exerciam seu reinado de rainha dos campos.

  Ano após ano a cobertura da terra foi mudando, a chegada do capim braquiária  foi um golpe para as perdizes. Campos imensos desse capim deixaram de ser criatórios de perdizes. Logo depois chega a soja, o agrotóxico, a plantação maciça, não deixando espaço para a procriação das perdizes.  Hoje ,por exemplo, em Maracaju encontra-se pouquíssimas perdizes,–quase nada — em relação há 30 anos , e não foram caçadas.

   Na época que eu andava por aquelas paragens, costumava frequentar mais que uma vez por ano o rio Apa, que não é tão distante de Maracaju,  para exercer minhas pescarias.

    Inesquecível era o Sr. Sebastião, padrinho do meu atual compadre, que morava numa cidade distante 40 km da sua pequena fazenda. Comumente estávamos lá para lançar as iscas no Apa.  Isso tudo, deixou muita recordação, e como escreveu Julio de A. Ferreira em seu livro Bichos da Guiné: “…na minha bagagem trago novos conhecimentos , e, principalmente mais um braçado de magníficas recordações para desbobinar  nas horas da velhice e dos reumatismos”. Assim, aqui estou a recordar.

   A casa da pequena fazenda do Sr. Sebastião era de madeira, na varanda da entrada uma coleção de chifres de veados mateiros ornamentava a parede. Energia elétrica, só um pouco, quando funcionava o gerador.

    Ele mantinha umas vacas em seu pasto descuidado, onde cresciam muitos acuris ,  o mato insistia em retomar seu lugar. Sr. Antonio, homem alto magro, sério, de voz  grossa, era quem cuidava de roçar o mato que rapinava o capim  das vacas.  Um dia argui o Sr. Antonio perguntado sobre as onças:

    —Sr. Antonio, já viu onça por aqui? Ele respondeu com seu vozeirão calmo:

    —Onça eu não vejo há muito tempo, mas sucuri tem ai no rio, e o que me põe medo é que ela tem um gancho no rabo. Ela pega a pessoa, engancha o rabo em qualquer coisa e puxa o sujeito para dentro da água.

     Concordei com ele para não fazer desfeito…

     Caçador tem um instinto que onde anda nota sempre a presença de um pássaro, um bicho, uma ave cruzando o céu, outra ave cantando. Foi assim que um dia ouvi o piado de perdiz nas terras do Sebastião. Eu nem imaginava que poderiam morar tais aves por lá. Costumava ver muito jaós, pombas, juritis , araras , papagaios, tucanos, etc, mas perdiz não.

    Certa vez, executando minhas empreitadas por perto, resolvi dar atenção às perdizes do Sebastião. Meu cão, o magnífico Lupe era o que me acompanhava na época. Um cão que não se podia achar defeito.

    Assim que chegamos pela manhã, soltamos o Lupe no pasto crivado de carrascal. O capim estava baixo.  Imediatamente o Lupe  já amarrou, e pula a primeira, que pouco  nos deliciou com a melodia de suas asas  e caiu. Continuei naquela mesma faina e mais outras foram levantando e caindo. Foi somente uma volta pelo pequeno pasto, não deu meia hora e já tinha seis perdizes no pendurico.

   A minha satisfação foi tanta que abandonei a caçada, dei por encerrada a atividade cinegética, sentindo-me um Orion. 

   Como era de costume não trazia as perdizes, então os parentes do Sebastião e eu tratamos de limpar, depois foi feito uma caçarolada. Encerrando assim um belo dia, com uma bela patuscada.

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