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Porco na ceva


· Caçada de Java porco na ceva


     Tendo em vista a caça proibida há muitos anos, eu não mais caçava em cevas na redondeza da minha cidade. Agora com a liberação da caça ao javali, e com sua chegada aos arredores, resolvemos praticá-la.

     A maneira mais prática de iniciar foi estabelecer contato com gente mais nova, já que não temos mais idade para enfrentar certos percalços. Foi assim que dei sorte contatar o Val, homem quarentão, tarimbado caçador de mato.

    O Val, já tinha uma ceva em andamento e me falou que a porcada estava batendo muito por lá e me convidou para conhecer o local.

    Uma tarde, após o serviço do amigo, rumamos pro local, com meio saco de milho debulhado, pra conhecer a ceva. Chegamos próximo ao local, que fica não mais que 10 km da cidade, numa vereda fechada de mato perto de um rio. Largamos a picape debaixo de uma árvore frondosa, numa ilha de terra cercada de canavial.

   Descemos até o mato e por uma pequena abertura adentramos, descendo por meio de cipoal e espinheiros, daqueles que não querem que a gente invada seu habitat, pois vai segurando e fincando seu pequeno espinho pontiagudo, fazendo a gente dar ré pra se livrar dele.

    Ao chegarmos à primeira ceva, olhando para o chão deparamos com rastros, de tamanhos diversos, de porcos que andaram por ali. Na ceva havia espigas de milho amarradas e também abacates transpassados com arame com partes comidas.    Jogamos farta porção de milho no chão e fomos procurar outro local para preparar mais uma ceva. Deparamos numa encosta com duas árvores propícias, a qual elegemos como poleiro. A poucos metros dela deitamos o restante do milho, em boa proporção.    Deixamos o local por volta das 19:00 horas.

    Noutro dia fiz contato com meu amigo, Mauro de Mirassol, experiente caçador de porco em ceva, com mais de 100 abatidos, para obtenção de mais informes sobre esse tipo de caçada.    Seus conselhos foram: poleiro deve ter 5,5 m de altura, distância da espera à ceva 15 metros. Usar roupas já sovadas de mato e não as lavadas recentes. Não usar blusas que fazem barulho ao se movimentar.   Também sugeriu enrolar cordas de sisal num pau, afincar próximo a seva e impregnar a corda com óleo queimado e diesel, pois os porcos gostam, e vem pelo cheiro.


Essa coisa de cevar é complicada, o dicionário descreve:     Ceva como :alimento que se dá ao animal para engordá-lo. Depreende-se que deve haver então constância no alimento e tempo para se ir sempre à ceva.

      Após 5 dias voltamos ao local para ver se haviam comido algo. Na ceva dos abacates comeram pouco milho, já na outra que só havia milho, comeram até bem. Só não soubemos qual foi o bicho que se banqueteou.

     No sábado posterior alimentamos a ceva com milho debulhado e na segunda partimos à noitinha para, agora sim, viabilizar o primeiro dia de espera.

Passei às 17:50 na casa do Val e partimos para o local. Logo na saída ele me falou que teria que apanhar outro companheiro. O amigo do Val também tem uma ceva perto. Fomos buscar o João que fica uns 5 km além do local.

     Deixamos a picape no mesmo local. O val estava com uma cartucheira, o João com uma cal. 22 com luneta e na ponta do cano um farolete. Não tinha ideia do que ele iria caçar com esse calibre, pois .22 para porco só se for tiro certeiro na cabeça com boa munição!

     Assim q chegamos à minha ceva, notamos que os porcos limparam o milho.

Com auxílio do farolete na cabeça, subi no poleiro, amarrei duplamente minha rede de nylon, pois se escapar o dano é grande.    Sentei-me na rede e procurei me acomodar. Coloquei o farolete, e a arma atravessada na rede. Carreguei -a com cartuchos com chumbo 3T, os mesmos que outrora utilizava com sucesso nas caçadas de capivaras.

    Gostei da rede, pois você fica bem acomodado, pode se encostar, enfim, muito mais confortável que ficar sentado num galho ou coisa parecida.

    Ficar imóvel por três horas na mata à noite, não é fácil, mas é muito reconfortante. Você respira ar fresco com sabor de verde, vai ouvindo os grilos, vez por outra o chilrear de um pássaro.

    A claridade do sol já havia sido trocada pela luz prateada da lua crescente. Pelas janelas da mata, atravessava o luar salpicando de claridade nossa mata.    O pensamento flui para tudo, menos no trabalho: Será que vou me deparar com algum bicho, pra que lado virá, será sorrateiramente ou barulhento?    O tempo anda muito vagaroso, demora pra passar, enquanto isso a gente tenta olhar com o monóculo noturno, que não se vê quase nada e, após olhar tempo no visor, a intensa luz cega sua visão, pois contrai a pupila.

    Fechamos os olhos abaixamos a cabeça e ficamos compenetrado nos ouvidos. Nem uma folha se mexe. Aproveito rezo um pouco, sem esquecer do ouvido, que continua atento divisando o barulho dos veículos que passam por uma rodovia próxima do mato. Uma brisa bem suave soprava de leve em meu rosto

    Por volta de 21:30 ouço um barulho, pisadas fortes se aproximando. Fui muito sutilmente virando o corpo e preparando a arma. A emoção brota, não dá pra descrever se é aflição ou uma espécie de tremedeira que aflige nosso corpo, só sei que é uma sensação extremamente emotiva que só nos caçadores temos o prazer de sentir. Mas, tudo foi fugaz, pois o bicho de pisado forte foi logo deixando o local sem que eu pudesse vê-lo, mas pelo tênue cheiro de chiqueiro que ingressou em minhas narinas, só poderia ser porco.

   O bicho foi se sem pressa, talvez tenha me farejado, ou ouvido algo. A dúvida pairou, pois talvez foi por não ter seguido as orientações do Mestre Mauro. Agora vou ficar um tempo sem ir, deixei o encarregado de cevar e assim que puder veremos o que fazer.

    Mais uma vez fomos para a espera. Como já mencionei, caçada de ceva é uma caçada antes de tudo de muita paciência, um efetivo exercício para se livrar das redes sociais, dos whatsapps e da correria intensa atual.

    Como de costume chegamos ao escurecer, conferimos os rastros dos bichos que eram intensos, e o milho que havia sido comido.

     Armamos a rede e nos encavalamos sobre ela. Ali permanecemos numa quietude absoluta, ouvindo tudo que é som da mata, uma folha que cai, uma ave que canta, além disso o frescor da mata com seus cheiros característicos como o marcante pau d’alho com seu odor forte, emanando cheiro forte de alho.

   Por volta das 21:00 horas os passos de um bicho me deixou atento e já posicionei a arma na direção do ruído, mas o animal passou longe por entre a densa vegetação que nem acendi a lanterna.

   Uns 10 minutos se passaram ouvi um estalo, era a .22 do João que pipocou na mata. Mais uns minutos outro estalo, mais um pouquinho mais outro estalo. Meu pensamento pessimista ditou: um tiro- caça abatida, dois tiros talvez, três tiros – caça se foi!

   Daí a pouco o Val se aproxima do meu poleiro e diz:– o João me ligou dizendo que abateu um porco.


   O bicho estava numa encosta funda. Era um porco enorme dos seus 110 kg.

   — Como vamos mexer com esse bicho enorme? Argui. Resolvemos então esquartejar o bicho, assim retiramos a barrigada, cortamos a cabeça e dividimos ao meio. Os dois companheiros ficaram encarregados de subir o morro com o bicho. Não foi nada fácil, sofreram muito, mas conseguiram.

    O mais interessante foi que o João acertou o bicho com uma .22 long rifle. Com muita propriedade ele acertou um tiro fatal no cérebro do bicho pegando num ponto mortífero entre o olho e a orelha. A distância era pouca, mas indiscutivelmente o tiro foi muito preciso e ele atirou mais duas vezes somente para certificar.

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