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Safari em Omaruru, Namíbia (completo). Autor: Miguel Pereira (caçador e escritor)

E o dia chegou. Finalmente a caminho da Namíbia para um safari, que, diga-se de passagem, foi repleto de toda uma série de contratempos e dificuldades desde a saída de Lisboa. Parecia mesmo que alguma coisa estava a tentar impedir as minhas intenções, tal a sucessão. Até uma noite tive de ficar em Frankfurt, qual derradeiro castigo, com o voo do dia da Air Namibia cancelado para o dia seguinte devido a problemas técnicos na aeronave.

Como é de calcular, aterrar finalmente em Windhoek foi um alívio e fiquei deveras impressionado com a quantidade de caçadores que vinham no meu voo, porque tendo dado por meia dúzia deles durante a viagem, quando me dirigi ao guichet para levantar as minhas armas é que vi que, afinal, caçadores eramos perto de 20. Nunca vi tantas armas a serem despachadas num aeroporto e com uma facilidade e simplicidade dignas de realce.

Tinha à minha espera o Freddy, proprietário da Farm Immenhof e ex-caçador profissional, onde vou passar os próximos 5 dias a caçar. Temos três horas e meio de caminho desde Windhoek até Omaruru, a região onde está a Farm, antes, e porque já eram 20:30h, fomos jantar um bom bife grelhado de vaca num restaurante próximo. Chegamos à casa eram 1:30h, bastante cansado e maçado dormi profundamente até me chamarem por volta das 8:00h para o pequeno almoço. Foi a altura de todas as apresentações que a chegada muito tardia de véspera não deixou acontecer.

Uma família tipicamente de origem alemã que está pela Namíbia há 110 anos. Gente muito simples, educada e afável que gosta de receber bem os seus clientes, num ambiente verdadeiramente familiar. A presença de cães de companhia em casa é também sintomático da influência anglo saxónica que ainda se sente muito no dia à dia do país. A altura do pequeno almoço serve para também conhecer o meu guia, o Casimiro, amigo de infância do Freddy, alguém que leva 37 anos de vida de caça pela região.

Terminado o pequeno almoço volto ao quarto para preparar as minhas armas e munições para sair. Trago uma Dumolin 30-06 e uma Brno .243. A Dumolin é uma arma usada belíssima, soberbamente gravada, com motivos a ouro, na qual nem damos pela falta do óculo, e cuja estreia africana vou ter o privilégio de fazer. Destina-se a alguém das minhas relações em Angola, para onde sigo após este safari. A Brno .243 é a arma que me faltava ter em Angola e que muito jeito me dará nos próximos meses nas minhas jornadas angolanas, esta sim, vem com um óculo Hawke 3-12X50.

De armas às costas sou conduzido à pickup que me irá transportar nos próximos dias. Já tenho os dois pisteiros à minha espera o Joosie e o Jordan. O Joosie é proveniente da zona do Caprivi, aquela que considero ser de momento a zona “core” para caça grossa em África, pelo que credenciais não lhe faltam e ele no decurso destes dias de caça viria cabalmente a demonstrá-las.

Só ao percorrer a primeira picada me apercebo que esta região do Rio Omaruru não é aquela Namíbia seca e semidesértica que estou habituado a ver junto à fronteira norte com Angola, é uma savana arbustiva de transição para as montanhas que estão próximas à zona do rio. A área desta Farmronda os 5.000 ha e tem ainda o aliciante de estar implantada num terreno misto, planície de savana arbustiva ladeada por montanha num dos topos da propriedade.

O primeiro dia permitiu-me confirmar como os terrenos da Farm estão bem providos de diversos antílopes e até existe uma vedação com preciosas palancas negras importadas da Zâmbia, cujo efectivo ronda os 40 animais, para serem progressivamente introduzidos em toda a área da propriedade, a qual é o orgulho do Werner, o herdeiro de Immenhof, que também é um PH (caçador profissional) e o principal gestor de Immenhof.


Tentamos a primeira aproximação a um grupo de 4 Orix, com dois machos razoáveis que cruzam descontraidamente o topo de dois enormes blocos de granito. O momento em que abandonamos o carro e começamos a pé é sempre o melhor para mim, uma verdadeira delícia. Mas não teríamos completado ainda metade do percurso de aproximação quando os Orix se apercebem de nós e encetam a fuga sem qualquer cerimónia, pelo que nos limitamos a vê-los desaparecer para trás dos maciços graníticos. Aceleramos de imediato o passo para não os perder de vista, só que quando ultrapassamos a barreira granítica, do lado de lá, nada. O Casimiro sorri por nos terem ludibriado sem hipótese, mas decide descer para o mato em baixo para procurar os rastos do grupo e pistear. Eu procuro um posto mais elevado, com uma boa visão do panorama circundante, quem sabe posso já ter oportunidade para o primeiro tiro. Os pisteiros não tardam muito a encontrar os rastos, eis que afinal um dos Orix estava mesmo ainda por ali, mas arranca no meio da parte mais suja do mato, sem hipótese para um tiro. Voltamos a juntar-nos e o Casimiro opta por irmos para outro local continuar a nossa busca, mas até à hora de almoço não conseguimos mais nenhuma aproximação de jeito, se bem que continuássemos a ver um número apreciável de animais. Durante o almoço conheci mais dois caçadores alemães e um espanhol que já são repetentes em Immenhof, um dos alemães vai ficar duas semanas porque quer abater um leopardo, a próxima noite vai passá-la junto ao isco com o Werner.

Após o almoço e um rápido cochilo voltamos às picadas. Volta a ser “mais do mesmo” como de manhã e no regresso à casa da Farm, com a penumbra a começar a querer chegar, damos com um bom macho solitário de Hartbeest (Damalisco) na borda de uma das picadas. Está a uns bons 300 metros. O Casimiro pergunta-me se quero aproveitar a oportunidade. Quando lhe digo que sim, manda logo parar o carro e damos início a mais uma aproximação. Vamos sempre encostados à borda da mata que nos oculta na perfeição. O Hartbeest continua impávido e sereno. Duzentos, cento e cinquenta, cem, oitenta metros e paramos. Já não dá para chegar mais, senão ele vai-se. Disfarçadamente o Casimiro posiciona o tripé, a Dumolin apoia na forqueta, vai ser o seu tiro de estreia às minhas mãos, aponto sereno, o Hartbeest está de frente, um arbusto tapa-o parcialmente, miro mesmo acima da linha do arbusto, onde alinha com o peito do animal, inspiro, pausa, e rebenta o tiro.

Impacto imediato no Hartbeest, que tomba logo e apenas mexe um dos quartos traseiros estendido no chão. Corremos até lá, não há dúvida, tiro fulminante de crânio, abaixo do olho direito, nem soube do que morreu. Os companheiros dão-me logo as felicitações.

– Good shot, Sir. Indeed a good shot …!

Fico particularmente satisfeito, é a minha estreia com este antílope em África. E o macho é de facto de bom nível, quase uma estampa. Em total acaso e de improviso saiu tudo perfeito, não poderia exigir mais. Eles posicionam o animal, tiramos as fotos que ficam óptimas.

Ao jantar toda a gente me felicita e constato que um dos clientes alemães abateu um bom Orix. Discute-se os acontecimentos mais marcantes do dia para cada um dos clientes.

O Freddy faz na perfeição o seu papel de anfitrião, nota-se bem que já tem uns anos disto.

O Hartbeest e a Dumolin.

A satisfação do Jordan e do Casimiro!

A dada altura o Werner começa a fazer-me diversas questões sobre Angola e vai-se dar a um tema quente a que nenhum dos presentes consegue ficar indiferente – a Palanca Negra Gigante (Royal Sable) de Angola. Faz-se o silêncio na sala para ouvirem alguns dos detalhes e últimos desenvolvimentos do projecto palanca do Pedro Vaz Pinto que tenho podido acompanhar desde que cheguei a Angola. Mostro algumas fotos de troféus de palanca negra gigante dos anos 60 e também do meu próximo livro que fazem sensação pela dimensão dos cornos.

– Impressive. Unbelievable. Look to the size …!

O Werner delira quando lhe mostro e reencaminho por email alguns dos relatórios palanca e fotos do Pedro Vaz Pinto. Nunca julgou que pudessem existir híbridos entre a palanca negra gigante e a palanca vermelha (Roan Antelope). E a conversa era de facto muito agradável, mas amanhã há mais e vou começar logo às seis da manhã com o Casimiro e companhia. Adormecer foi muito fácil.

Começo o segundo dia com um frio com que não contava de todo. Por acaso, quase descargo de consciência, coloquei um polar na mala. Nem sei o que seria de mim sem ele aqui. Só por volta das 8:30h a coisa melhorou um pouco. No dia anterior já estava assim, mas como só me levantei às 8:00h não apanhei este frio crepuscular que me faz lembrar bem da velha Europa quando se entra para o Inverno.

Não teríamos feito mais de quinhentos metros pela primeira picada do dia, quando damos logo com o rasto de um enorme leopardo. O Casimiro diz-me que este rasto não terá mais de duas horas. Liga ao Werner para lhe dar a novidade. Enquanto nós arrancamos para procurar o meu Orix, o Werner arranca a toda velocidade donde está para ir logo lá ver este rasto e tentar perceber para onde o leopardo se encaminhou. Afinal de contas, ainda tem um cliente para atender o cobro de um leopardo …!

O rasto que mexeu com todos nós.

No entanto para mim o dia foi algo entediante. Procuramos, e vimos, um número apreciável de bons Orix, mas todas as aproximações se goraram, porque simplesmente eles não deixavam chegar. Pela primeira vez entramos em terrenos de montanha, num constante sobe e desce, os Orix sempre lá à frente, sempre em fuga, e fiquei algo atónito como, mesmo neste terreno, se punham logo a andar a distâncias inconcebíveis. E era mesmo curioso comparar com os cudos que também íamos vendo pelo meio, que não exibiam tanto este comportamento permanente de fuga em antecipação. Foi quando não resisti a perguntar ao Casimiro :

– Vocês aqui não lhes devem dar paz para eles andarem desta maneira?

O Casimiro sorriu-se e nada disse ou opinou, fazendo jus ao portuguesíssimo “quem cala consente”. E até à noite não deu mesmo mais nada.

Ao jantar ficamos a saber que o espanhol feriu um Orix não muito longe de onde andámos na montanha. Estranho de nem termos ouvido o tiro. Ainda o pistearam durante meia hora, sempre com sangue fresco no chão, mas a penumbra e a chegada da escuridão não deixaram fazer mais. Logo de manhã vai procurá-lo com a sua equipa de guia e pisteiros. Ficamos todos na expectativa de que amanhã de manhã o irão encontrar estendido nalgum lado. Pela minha parte encontrei mais uma boa noite de sono ao chegar ao quarto.

No dia seguinte, novamente às 6:00h, dia a despontar, levamos com mais uma dose de frio que nos arrefeceu completamente os entusiasmos. O dia está ainda pior que ontem, porque um vento persistente a dar do lado de Walvis Bay, enregela-nos totalmente. Nunca apanhei tanto frio em África, impressionante. Pela primeira vez, desde que caço neste continente, tive de abandonar o banco no topo da pickup para me ir meter na cabine e resguardar-me do frio, era insuportável. O Casimiro e o Joosie continuam lá em cima e durante as próximas hora vão sujeitar-se a um frio extremo, dando mostras de um grande profissionalismo. E durante as horas seguintes foi notório que os próprios antílopes tinham também como que desaparecido, talvez em razão destas condições de tempo tão adversas.

Eram umas 11:00 h quando nos chega um pedido de ajuda. O espanhol não consegue encontrar o seu Orix, que mesmo sangrando desde ontem à noite não dá mão numa zona muito fechada de arbustos onde se meteu logo de manhã quando se começou a sentir novamente perseguido. Pela minha parte não tive problema em irmos lá dar um salto, já que a ideia era ter mais gente para permitir o cerco final, porque diziam eles, que o Orix se passava de umas manchas de arbustos para outras sem que o conseguissem ver nem impedir porque eram poucos para tanta área de terreno.

Na prática, mesmo ferido, o Orix vendia cara a vida e defendia-se tenazmente até à última, como de resto vi fazerem todos os outros que avistamos nas nossas voltas. Mas isto queria também dizer que, afinal, o tiro só deve ter sido mesmo de raspão, caso contrário, e após tantas horas, jamais conseguiria fugir daquela maneira. A dada altura o Joosie conseguiu, com um trabalho notável de pisteio estar mesmo muito perto do Orix, tendo mesmo avisado que após tantas horas de perseguição e encurralado pelos humanos havia o risco de ele carregar no meio daqueles arbustos fechados. Após hora e meia, e com a altura de almoço a bater acabámos por desistir, porque quem nunca mais desistiu de fugir foi o Orix, nem mais ninguém lhe conseguiu voltar a por a vista em cima.

Após o almoço, estava com uma sonolência assinalável, talvez fruto de toda a energia despendida pela manhã com o frio intenso e o acima abaixo constante na procura do Orix ferido. Voltei a sentar-me no carro com aquela sensação que deveria ter descansado mais um pouco, mas o tempo passava e o dia era obrigatoriamente para abater o meu Orix, porque já só me restava mais um dia de caça em Immenhof.

Mais uma vez, o Casimiro espetou comigo na zona de montanha, para nova série de tentativas de aproximação. E eram cerca das 16:00 h quando vimos o “meu” Orix numa grande encosta sobranceira à picada por onde entramos, pelo meio uma linha seca de água. Do lado de lá, a meia encosta, lá estava ele, bem encorpado, comendo descontraído o capim a uns bons seiscentos metros. Ficamos ali um bom bocado de binóculos na cara a aguardar se ele ainda se mexia para outro lado, mas não. Tudo indicava que ficaria por ali para passar a noite.

A dada altura o Casimiro fez sinal para avançarmos, ainda tínhamos uma boa distância para percorrer na aproximação, mesmo sendo sempre a descer até à linha de água seca. Andamos rápido e subitamente, do nosso lado esquerdo, aparece-nos um bando de babuínos e aquilo foi o estardalhaço total, algo completamente inoportuno para a ocasião.

Parámos de imediato quando aqueles bandidos começam a gritar e a subir e descer à copa das árvores próximas, com aqueles gritos constantes (Auuu, Auuu, …) enquanto batiam agressivamente com as patas no solo para nos intimidar. Tentámos tudo para os ignorar, não lhes ligando importância alguma na esperança que se fossem embora, e sempre de olhos postos no Orix lá à frente. Três machos mais novos encetam mesmo investidas na nossa direcção até aos 15/20 metros, após o que fogem desalmadamente para o pé dos outros. E nessa altura confesso que só me deu vontade de lhes espetar um tiro …! Estavam mesmo a pedi-las. E o próprio Casimiro também encheu o copo e de repente vira-se para eles exibindo com a mão um magnífico manguito que foi a única coisa capaz de me fazer rir naquela ocasião tão delicada. E como se nós também não desarmássemos de estar naquele local, que os babuínos obviamente consideravam seu território, acabarem eles por desistir e se irem embora.

Miraculosamente o Orix não ficou perturbado com o espalhafato e voltámos à calma da nossa aproximação. Já mais perto dele apercebemo-nos que afinal, ao seu lado, também está uma fêmea, até aí completamente disfarçada com a vegetação. E vamos progressivamente encurtando a distância até chegarmos a umas rochas que nos dão cobertura total e um excelente apoio para a Dumolin. Mas mesmo assim estamos a cerca de 150 metros e eu com “open sigths”, e o Casimiro insiste:

– From here. Do it …

Corro o ferrolho, apoio a arma, retiro a segurança, e começo a visar o Orix que se mexeu da posição inicial, está agora de frente a ¾. Alguns segundos de concentração, e o tiro troveja entre ambas as encostas, estendendo a ressonância do seu eco vale abaixo. O Orix estatela-se de imediato no chão, como se subitamente deixasse de ter pernas para o sustentar. Quando chegamos ao pé dele constato que o tiro lhe entrou pelo peito, foi fulminante. Mais felicitações da parte dos companheiros. Um lance que valeu a pena e que a maluqueira dos babuínos veio dar ainda mais valor, quando parecia que tudo se iria perder novamente, mas como se diz “quem porfia mata caça”, e isto foi caça. Objectivo do dia cumprido.

Ao jantar nova dose de boa conversa sobre jornadas de caça e o Freddy começa a soltar-se um pouco mais sobre os seus tempos de juventude das caçadas que fez amiúde na zona de Omaruru em terreno livre, também as teve ainda do melhor, em especial nas décadas de 70 e 80. Apesar do bom lance da tarde, à noite tenho os lábios a começar a gretar do frio empurrado a vento.

O Orix, a Dumolin, o caçador … pelo final da tarde.

E na manhã seguinte começa o último dia. Acompanho o abastecimento de gasóleo ao carro, arrumo as minhas armas e munições, e o vento, sempre o malvado vento, a dar. A primeira hora e meia do dia vai ser sempre assim. Estou algo ansioso porque me falta um Cudo e um Springbok (cabra de leque) e não sei se conseguiremos no mesmo dia, o tempo fica cada vez mais curto. E com todas as expectativas lá saímos para mais um dia.

A primeira volta vamos percorrer calmamente uma parte do leito seco do Rio Omaruru, o qual segundo o Casimiro, costuma ter a presença de bons machos de Cudo na vegetação ao longo das margens. Vimos realmente um boa quantidade de Cudos, fêmeas na sua maioria e alguns machos novos, mas nada que justificasse o nome Greater Kudu. O Cudo é para mim o antílope mais belo de África e há sempre um fascínio especial em abater um bom macho, cujo porte pode ser assinalável, quase do tamanho de um cavalo. É certo que, dentre dos antílopes africanos, o Eland é maior, mas não tem a graça, beleza e nem a imponência do Cudo que é um animal magnífico das matas africanas e que nunca me canso de contemplar.

A dada altura abandonámos as picadas de Immenhof e entrámos num terreno novo para mim. Quando pergunto ao Casimiro que zona é esta diz-me que é a propriedade de um dos irmãos do Freddy e que vamos de certeza encontrar um bom Cudo. A zona tem mais arbustos que Immenhof, mais fechada e suja, mas também uma bela paisagem. E começamos a encontrar vários grupos de 4 a 6 fêmeas e machos jovens. Até que do lado direito da picada, a uns noventa metros aparece finalmente um macho de “bom calibre”.

Saltamos do carro para fazer a aproximação e mesmo rápido como foi o Cudo já se apercebeu de nós e anda um pouco para a frente para se tapar com a vegetação, deixamos de o ver e também paramos. O Casimiro chama-me com sinais da mão e vou atrás dele para fazermos uma aproximação cobertos pela borda da mata. Fazemos dez/quinze metros de cada vez e paramos. Não consigo ver o Cudo e o Casimiro também, mas ele sabe onde o Cudo está completamente imóvel e desconfiado. O vento está a nosso favor, por isso o Casimiro avança com tanta certeza e determinação, só temos de ter mais cuidado é com algum barulho inadvertido. Com os binóculos, o Casimiro passa a pente fino a zona onde acredita estar o Cudo, são momentos que custam a passar envoltos numa grande dose de incerteza sobre se o animal está ou não lá. Até que ele baixa os binóculos e aponta com toda a certeza, dizendo baixinho.

– There.

Continuo sem conseguir ver nada. Vamos avançar mais um pouco, o Casimiro já prepara o tripé, mas faço-lhe sinal que não quero atirar com o tripé, prefiro apoiar a arma na ramada grossa de uma pequena árvore à nossa direita. Na areia do chão ele faz um esboço tosco do local onde se encontra o Cudo atrás dos arbustos e aponta onde o devo procurar, deixa-me a recomendação.

– Wait, you will see him. Wait …

Apoio a Dumolin e aponto para zona que ele indicou. E ao fim de uns segundos um movimento das orelhas denuncia finalmente o grande macho, que está quase imperceptível naquele meio.

Aponto, enquanto vou tentando “desenhar” os contornes do corpo daquele Cudo. Quando me parece que “lhe encontrei” a espádua, disparo sem cerimónias. O Cudo arranca em corrida logo após o tiro, fico indeciso se falhei ou não, mas a rapaziada diz:


Ouve-se perfeitamente os cascos do Cudo em corrida pela mata durante mais uns cinquenta metros, até que ele pára numa pequena clareira e volto a atirar-lhe rápido e desta vez apercebo-me claramente do impacto da bala. Novo arranque do bicho que corre mais vinte metros e cai desgovernado. Percorremos a distância até lá e é nesta altura que me apercebo verdadeiramente do tamanho dele. Aquando dos tiros foi tudo tão rápido e ele tão dissimulado estava na vegetação que nem me tinha apercebido bem do tamanho dele, é magnífico, mesmo se não tem cornos por aí além. Fiquei bastante satisfeito, sem dúvida o maior Cudo que abati até hoje.

Procuro agora os tiros. O primeiro entrou-lhe transversalmente, varando-o na base do pescoço e pouco estrago lhe fez, o resultado natural de estar a “adivinhar” onde ele tinha a espádua, que falho por uns 40 centímetros para a esquerda. O segundo tiro, ao fazer aquela paragem momentânea, colhe-o a meio da coluna, sai pelo outro flanco e é o que verdadeiramente o faz ir ao chão e acaba com a sua história. Foi um lance bastante emotivo e movimentado, fica também para a posterioridade. Recebo aquele abraço da rapaziada e fazemos algumas fotos. Carregá-lo é que custa um pouco devido ao tamanho e à reduzida dimensão da caixa de carga desta pickup de cabine dupla em que andamos, mas lá coube.

E chegou o momento para procurar a última peça de caça para fechar em beleza a minha passagem por Immenhof. Temos hora e meia para dar com um Springbok antes que escureça, o que me parece assaz reduzido, mas o Casimiro continua com uma confiança inabalável quanto a isto. Só que eu preciso de ver para crer.

E lá regressamos às picadas de binóculos na mão, mas agora para uma zona mais aberta com capim seco e passados uns 45’ damos mesmo com um macho de Springbok, que não sendo nada de especial, não deixava de ser aquilo que eu precisava no momento e no local certos para não me ir a lamentar no regresso porque me faltou o Springbok.

Desta vez pego na .243 e com ele pastando calmamente aí nos 120 metros atiro-lhe com o retículo bem pousado em cima da espádua e … falho. O Springbok empertiga-se pela passagem

“Aquando dos tiros foi tudo tão rápido e ele tão dissimulado estava na vegetação que nem me tinha apercebido bem do tamanho dele, é magnífico, …”

da bala perto e fica estático. Já expulsei o cartucho detonado, faço novo tiro e … falho de novo. Ambos os tiros altos, mas o que é que se passa?

– Take the 30-06.

Diz-me o Casimiro, enquanto fico incrédulo como é que o Springbok ainda não arrancou em corrida em vez de olhar espantado para tudo em redor, enquanto as balas lhe rasam o garrote. Insisto ainda com mais um tiro da .243, apontando mais baixo, e ia caindo para o lado com novo falhanço monumental. E é escandaloso como o Springbok não sai dali para fora e se mantêm no mesmo sítio. Largo a .243, quando o Casimiro já me oferece a Dumolin pronta a atirar. E ao primeiro tiro o Springbok tomba finalmente, e eu, sem qualquer motivo para celebrar, continuo boquiaberto com a sucessão de asneiras que ali fiz de seguida. Os companheiros tentam celebrar na mesma, mas eu estou quase em estado de choque. Pego novamente na .243 e faço um tiro a um tronco de árvore ali a uns 80/90 metros e meto a bala exactamente onde apontei, o que me deixou ainda mais confuso e sem conseguir compreender mesmo o que é que se passou nos tiros anteriores.

O Joosie diz-me com a maior calma e descontracção:

– Definitely, 30-06 is your caliber Sir.

– Joosie, I don’t know what is more strange. The way I missed 3 consecutive shots or the way the Springbok keep standing there without running away. Really don’t know, never ever in my life I had something like this. All my friends in Portugal will laugh a lot when I tell this story. I’m astonish Joosie.

E foi assim o fecho em Immenhof, sem a magnificência que seria de supor, após excelentes lances com os outros antílopes. E este é um relato sério do que aconteceu, em que nada foi ocultado por conveniência ou vaidade tola. A fazer-nos lembrar que na caça podem sempre acontecer estes incríveis volte face, da mesma forma que antes tudo correu bem. É por isto que não há dois dias iguais nas jornadas de caça e só temos é de saber encaixar, custe o que custar, à frente de quem for, e tirar uma lição para o futuro porque ninguém é infalível e é quando elas nos doem mais.

Mas a .243 vai novamente ser posta à prova assim que chegar a Angola, quase de certeza ali para os lados da Fazenda do Carivo, na região de Benguela, porque ainda temos algumas coisas para acertar e conversar bem entre nós.

Obrigado Mãe África por te teres lembrado deste pecador, bem hajas. A aventura prossegue.


Miguel Pereira , caçador e escritor, reside atualmente em Angola onde escreve o seu segundo livro “Caça,Pureza SublimeII”

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