Saudades do Passo da Lontra


Após juntarmos as iscas vivas de jejuns, que é uma espécie de lobó ,e toda traia,partimos. Íamos: Paulo, meu primo Tone, eu e o Café. O rio  calmo corria entre vegetações baixas do pantanal onde se via muito aguapés e nada de árvores frondosas. O sol indomável batia forte castigando nossos corpos. Tínhamos que nos prevenir com roupas compridas chapéus bem protegidos e protetores solares, já que abrigo sob árvores era impossível.


Café prepara sua tralha, anzol 9/0 linha 0,50 molinete Daiwa , vara de fibra e lança a isca de jejum. Não demora muito a puxada dura indica que é dourado. Café imediatamente reage numa chasqueada firme e o amarelão salta agitando a cabeça querendo se livrar do anzol cravado no queixo. A inquestionável habilidade de Café, sem dar chance para o peixe logo arrasta o bicho, que se aproxima do barco e tenta se livrar do anzol fazendo suas acrobacias, indo para baixo do barco, mas contra a força não há resistência. O amarelo ouro mais lindo do rio, entrega suas nadadeiras e se rende ao seu maior predador.

A pescaria continua, seguindo as instruções do Café, lançamos a isca e logo outro dourado abocanha, e mais um vem para o barco.

Resolvo experimentar a carretilha Daiwa, que tinha recém adquirido. Coloco o jejum e lanço, encosto a vara no barco enquanto faço outra coisa. Logo ouço o barulho da vara que desliza na borda do barco, e num puxão rápido me detenho com a uma enorme cabeleira, havia esquecido de soltar a trava do carretel e o peixe livrou-se da fisgada. Ainda bem que tinha outra vara pronta e a pescaria continuou, senão ia passar muita raiva.

Mas a grande surpresa desta pescaria foi que a cada dourado que pegávamos perdíamos dois a três anzóis. As piranhas estavam acompanhando os dourados, pareciam que estavam combinadas com o dourados para protegerem dos amaldiçoados anzóis. Elas simplesmente cortavam as linhas e cada vez mais o estoque de anzol baixava.

Não só os anzóis iam como também as iscas não venciam a tormenta das piranhas enfurecidas. Tivemos que voltar para a pousada pegar a condução e procurar onde o pessoal estava a pescar iscas. A missão tinha que ser rápida, pois sabíamos que aquela festança de dourados não iria durar muito. Na correria, saímos e retornamos para o mesmo local rapidamente e continuamos a pegar dourados.

No outro dia nosso estoque de anzóis acabou e tivemos que recorrer aos 11/0, que eram somente para anzóis de galho, os únicos que tínhamos, já que foram mais que 100 anzóis. Nunca havia perdido tantos anzóis numa só pescaria.

A pescaria foi promissora, nos rendeu momentos de extrema emoção em retirar aquelas criaturas nervosas e belíssimas das águas do Passo da Lontra.

No retorno da viagem, passamos pelo posto de fiscalização, fomos inspecionados, a caixa de peixe lacrada e foi dado um termo de vistoria. Assim seguimos viagem e nos próximos postos de fiscalização íamos apresentando o termo e os fiscais duvidavam que nós estivessemos carregando somente dourados. Realmente foi uma 

Saudades do Passo da Lontra.

Passo da Lontra situa-se pouco mais de cem quilômetros da cidade de Miranda-MS. O local é fácil de ser alcançado, assim que o asfalto é deixado, poucos quilômetros de terra já estamos dentro do pantanal.

Costumávamos sempre ficar à esquerda, após a ponte de enormes troncos em treliça que cruza o Miranda. Ali sempre armávamos nossas barracas e empreendíamos nossas pescarias.

Fizemos grandes pescarias, bem como tivemos muitas decepções, tudo faz parte. O que valia era estar pescando.

Deparamos com situações hilariantes, tais como: uma noite um turista limpava peixe com parte do corpo submerso na água trabalhando com o peixe na margem. Cheguei perto dele e vi em sua retaguarda um jacaré que estava esperando a oportunidade para abocanhar algum resto de peixe. Disse então ao pescador:

—Você notou que tem atrás de você um jacaré?

Nisso o homem deu um salto assustado, largou tudo onde estava e não quis saber mais de nada.

Outra coisa que apreciávamos durante a noite na bela ponte de madeira, era olhar os enormes pintados que ficavam nadando contra a corrente, quase imóveis debaixo da ponte. Eram monstruosos e nós na ânsia de querer apanhá-los, preparávamos vara com um anzol e garatéia e soltávamos próximo deles para poder dar um chascão e fisgá-los, mas era impossível, eles eram mais espertos que nós, assim que o anzol caia na água afundavam e ficávamos só na vontade…

Aquele ano a pescaria prometeu, chegamos à noitinha, armamos nossas barracas, fizemos um lanche e nos metemos para dentro da lona para o descanso da longa viagem.

A noite passou rápido, acordei com raios de luzes da manhã no pantanal. Olho pela janela da barraca e vejo muitas silhuetas, que para mim pareciam galinhas ciscando o terreno. O dia foi clareando e assim pude divisar melhor, na verdade eram carcarás que metiam a cabeça pra trás e grunhiam créc- créc e catavam restos de peixes pelo chão.

De antemão já havíamos contatado o “Café”, experiente pirangueiro, para que nos acompanhasse na pescaria.

pescaria única jamais repetida, pois conseguimos trazer muito dourados.

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