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Tijolão maldito!


Quando surgiu o tijolão, como eram apelidados os primeiros celulares, ficamos até contentes, pois poderíamos falar com a família em locais ermos de caçada.

O antigo tijolão tornou-se minúsculo e infestou o país. Hoje em dia, não podemos detonar um tiro num pequeno sítio, que de imediato um celular é acionado para promover denúncia. Um amigo fazendeiro colocou em sua propriedade uma pequena máquina lançadora de prato para treinamento e logo a denuncia sepultou o divertimento.

O celular, foi o maior culpado de encerrar nossas atividades dianistas no Estado de São Paulo. O esporte salutar, que era praticado seguindo a temporada correta, sem exageros de peças abatidas. Não havia depredação era a caçada consciente , sendo que todo ano encontrávamos sempre espécies, pois a colheita era feita de forma balanceada. Promovíamos um entrelaçamento amigo com os moradores da região, e sempre nossa ida era festejada com churrascos e conversas muito agradáveis.

Nossas incursões se davam em maio, saíamos daqui na sexta à tarde com nossas caminhonetes, engolíamos 400km de distância, muitas vezes sem nenhuma parada. Chegávamos pela madrugada, para enfrentar um trecho de 30 km de chão. Parecia uma praga, toda vez chovia e tínhamos que enfrentar um barro danado. Se fosse barro em estrada plana, até que não seria tão custoso, mas o problema é que tinha uma descida lisa como um sabão. Vejam vocês, à noite e descida com barro , com caminhonetes que tem a frente pesada do motor diesel. Toda hora enveredava para o barranco. Era um verdadeiro sufoco, mas o Santo sempre nos ajudou e conseguimos com muito custo, sempre vencer o trajeto.

Eu estava encabulado com a situação de toda vez ter que enfrentar barro para chegar ao nosso destino. Refleti e resolvi que para o ano seguinte iria adquirir uma picape traçada. Justo nessa época iniciou a fabricação das F1000-4×4.

Próximo ano, como de costume, mês de maio, partida para a caçada. Agora todo orgulhoso com a traçada que certamente não me iria deixar na mão.

Mas o tempo nos trapaceou, manteve-se firme, sem sombra de chuvas.

Não pude saborear o prazer de engatar a tão almejada alavanca do 4×4. Que decepção!

No outro dia, sábado pela manhã, pulamos cedo da cama, mesmo porque o frio da noite não deixou que dormíssemos bem, de fora, carregado pelo ventinho, entrava o frio que ultrapassava as frestas das paredes de madeira do quarto.

Tomamos nosso café com pão caseiro e fomos para caminhonete, ela estava com espessa camada de geada, jogamos água no parabrisa e tentamos a partida no motor, e nada. Aquecemos água e jogamos na bomba injetora, até que funcionou.

Metemos os cachorros, as traias e saímos. Andamos cerca de 5 km e o motor parou. O motor não pegava, não tínhamos quem nos socorresse. Passou um caminhão de leite e pedimos ajuda. O motorista falou—Você já tirou o peneirinha da bomba de diesel? Disse que não. —Então tire e limpe.

Assim sendo retiramos o filtro e notamos que o diesel estava gelatinoso, o frio congelava o diesel. Naquela época o diesel não possuía o aditivo que retardava o congelamento. Sei dizer que repetimos essa operação por diversas vezes e só foi possível andar mesmo com a picape assim que o sol esquentou bem. Com isso tudo, a caçada foi para o brejo.

Aventuras sempre são cercadas de tropeços, mas vale a pena!

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