Tom Jobim caçador

Tom Jobim caçador

Tempos atrás, conversando com Mário Colado do Clube Calibre, surgiu um assunto sobre chamar macuco no pio, falei que é uma tarefa difícil, que a pessoa precisa ter um ouvido bom e dar o tom certinho. Aí o Mário disse:

—-Por falar em tom, você sabia que Tom Jobim, o mundialmente famoso músico, também foi caçador. Eu respondi que não sabia, mas sabia que adorava a natureza e fez algumas músicas em sua homenagem. Isto do Tom ter sido caçador, ficou gravado em minha mente. Um dia meu filho que é músico, um dos criadores do Mandusarará, vide http://www.youtube.com/watch?v=JDFifOf-2zY estava com um livro de biografia de Tom Jobim e me mostrou um capítulo do livro que retratava justamente o que reproduzo a seguir.

Um dos personagens que mais fascinava Tom Jobim em Ipanema era Tico Soledade, campeão de levantamento de peso, professor de educação física da Escola Naval, musico amador e profundo conhecedor das coisas do mato e do mar.Tico, tio do amigo de infância Régis França,solava músicas inteiras soprando a flauta pelo nariz, façanha, que deixava Tom embevecido.Foi com ele que aprendeu incontáveis nomes de bichos,de aves,de plantas e de componentes da nossa fauna marítima.”Eu ficava impressionado com os seus conhecimentos,principalmente das coisas do mar”,disse o pintor Eduardo Sued,companheiro ipanemense de Tom Jobim naquela época. Eram de Tico Soledade observações que Tom repetiria pelo resto da vida, como a de que não fazem parte da fauna brasileira os “animais de presépio”: o boi ,o burro,o jumento,a galinha,o carneiro etc.Foi ele que ensinou a Tom a usar as peças que imitavam os cantos dos pássaros.Tico era caçador e filho do médico e caçador Fernando Soledade(1),o mesmo que, certa vez,fez parte de uma caçada em Mato Grosso,comandada pelo General Cândido Rondon e contou com a participação do ex-presidente dos Estados Unidos,Theodore Roosevelt.Segundo contava Tico, foi montada uma verdadeira operação de guerra a fim de que o político norte americano levasse para o seu país o orgulho de ter matado uma onça no Brasil.Eram cerca de trinta cachorros,10 epingardeiros e muitos cavalos, todo mundo atrás da onça,até que a fera foi encontrada em cima de uma árvore.E “onça em cima de pau”,diziam Fernando e Tico,e Tom não se cansava de repetir,”é passarinho”. O que atraiu mais Jobim em toda essa história foi o seu desfecho,com a troca de delicadezas entre o General Rondon e Theodore Roosevelt:

-General Rondon por gentileza,queira atirar na onça.

-Absolutamente.O senhor veio da América para matar a sua oncinha.Por favor.

Depois de tantas cortesias, ficou estabelecido que o tiro caberia a Roosevelt. Este escolheu pacientemente a arma, apontou e atirou exatamente no olho da onça, para não estragar a pele. Imediatamente,os fotógrafos integrantes da caravana registraram o momento histórico em que a fera agonizava aos pés do ex-presidente norte-americano.

Tom Jobim adorava freqüentar o pequeno apartamento de Tico Soledade, na R. Montenegro,onde passavam horas soprando pecinhas que imitavam os pios dos pássaros.”Os dois se divertiam muito. Mas, para nós outros, aquilo era uma chatice só”,recordou Régis França. Em companhia de Tico,Tom passava vários dias na mata caçando macacos,barbados,onças,antas,macucos,nhambus-açus e nhambus-chororós. Uma dessas caçadas foi lembrada pelo compositor no livro Mata Atlântica-Visão do paraíso,lançado em 1994,pouco depois de sua morte.Narrou Antonio Carlos Jobim com o estilo que levou alguns acadêmicos a proporem a sua candidatura a uma das vagas da Academia Brasileira de Letras:

“Cruzou a bandoleira no ombro e botou os pios no bolso, de jeito que chacoalhassem na caminhada. E foi subindo lançante. Fresquito(…) Manhã redonda,solene.O sol sarapintava o chão.Tico piou macuco. Silêncio. Nada como o tempo para passar. Tico arriscou mais um piado. Dana,nenhuma resposta. Calada do dia. Na visão periférica de Tico, algo mudou de lugar no colorido das manchas do sol. Tico voltou os olhos para a esquerda e viu a onça. Virou o cano da cartucheira,calibre 20(para a esquerda),apontou, destravou, a onça parou imóvel,e disparou. O chumbo bateu na cara da onça, ela deu um pulo pra cima e caiu sentada nos quartos traseiros. Tico disparou o cano direito.A onça com as garras destruía o mato rasteiro à sua volta.Tico recarregou e mandou mais duas cargas de chumbo no pescoço e na pá da suçuarana, que já não governava nem girava, e escorregava ravina abaixo. Lá embaixo,o grotão. Mais tiros imobilizaram a bichona, que ficou agarrada na vegetação rasteira e no João –barandi. Tico marcou bem e desceu o espigão, atravessou os grandes salões da floresta encantada, lugares cheios de dignidade e mistério, rente ás pedras redondas, grandes como casas, meio embutidas no chão macio da floresta ,cobertas de musgo, gravatás e bromélias e orquídeas, mas Tico descia rápido serra abaixo e logo chegou no rancho das uricanas. Convocou os companheiros, o cozinheiro, o mateiro e lá se foram serra acima, até a felicidade. O espanto foi geral,onça morta no pio do macuco.

……..É que Tom era caçador na floresta e pescador no mar. Ninguém defende mais a integridade da vida selvagem do que o caçador, nem a limpeza dos mares, das lagoas e dos rios do que o pescador.Sem o respeito à ecologia, não há animais para caçar nem peixes para pescar………

http://www.youtube.com/watch?v=ilsBZZxZE-k

(1)Dr. Soledade é citado no Livro Viagens e Caçadas em Mato Grosso, do autor Comte H.Pereira da Cunha, editado em 1949

Livros de consulta: Antonio Carlos Jobim- Uma biografia- Sérgio Cabral

Visão do Paraíso – Antonio Carlos Jobim-1995

Foto: da web

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