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Tonicão atrás dos macucos


                                                           Foto retirada da web

Tonicão atrás dos macucos.

   Noite pálida de lua cheia, sem vento, silêncio absoluto. Gatos curiosos destemidos cercavam os perdigueiros, cheios de indagações sobre sua passageira permanência.

    Amanhece o lindo dia da planície em azul anil, após duas horas já se sente o calor causticante e a baixa umidade atmosférica que fere nossas narinas. Somente na sombra das verdes mangueiras, que estão já na produção dos frutos é que se tem um pouco de frescor. Uma rede é estendida e o Tonicão descansa seu esqueleto já surrado de tantas peregrinações pelos sertões aguardando a hora propícia para a saída ao encalço do macuco.

    Por volta das três horas da tarde quente, esquece ele mais uma vez que será atacado por micuins, carrapatos e borrachudos. Aliás, todo caçador é assim: passa por privações horríveis, mas logo as esquece e retorna para a mesma jornada.

   O mato sempre assusta as pessoas, primeiro o temor de ficar perdido; segundo os bichos, as cobras e até onças. Onça? Sim a onça costuma vir ao chamado do macuco,ela aprecia muito a carne do macuco, bem como da jacutinga. Mas, o que mais tortura o caçador de mato não são os animais e sim os insetos. Formigas, carrapatos, pernilongos, borrachudos estes sim judiam de quem penetra no mato.

   Mais uma vez Tonicão procura uma árvore caída num local que de visibilidade nos 360 graus, pois o macuco poderá vir de qualquer ângulo. Com sua roupa camuflada, inicia o repertório de piações que variam de notas musicais entre Mi e Fá. Todos sabem que o macuco solta seu som em tempos espaçados entre 3 a 5 minutos ou mais. Muitas vezes responde uma só vez e se aproxima do caçador, outras vezes fica a responder e não dá o ar da graça. É isso que torna a caçada emocionante.

   Quantas vezes o Tonicão adentrou ao mato sem sucesso e saiu feliz. O contato com o mato, a observação dos pássaros o som das aves, dos macacos, os bichos que passam ao redor, tudo isso faz refletir a máxima: o importante é estar caçando.

  Tonicão permanece agora em pé e logo escuta uma correria no mato que vem se aproximando, não deu nem tempo de refletir o que seria, e a corrida vem ao seu encontro e passa como um raio. Era uma cotia que corria desesperada sem saber do que.

   Tonicão continua lá, pois o macuco deu ar da graça respondendo a piada, nisso ouve mais uma vez um barulho, agora sim, mais alto de galhos quebrando e folhas pisoteadas. De repente surge a cinco metros uma linda anta macho, com sua tromba querendo pressentir algum cheiro diferente. Ela para, olha para os lados e nem percebe a presença do homem. Tonicão troca mentalmente conversa com a anta e diz : como você é linda , como é bom estar perto de você, criatura das matas que antigamente  era muito caçada .Hoje vocês são muitas que podemos vê-las até em campo aberto. O homem quase não a molestam mais.E assim foi por alguns minutos essa mentalização de carinhos, parecendo até que a anta estava sensibilizada..

   O tempo correu mais um tanto e na sucessão de piadas a emoção tomou conta do Tonicão, o macuco estava piando grosso, sinal que estava perto.

  Nessa hora a piação do Tonicão até se atrapalha um pouco, pois a emoção faz tremer até os lábios. Nisso escuta o pisotear macio do bípede sobre as folhas secas. Eis que surge atrás de uma árvore, onde mostra só seu pescoço e cabeça. Tonicão na ânsia, sem mesmo fazer pontaria, detona sua arma instintivamente e escuta o rufar das asas do grande tinamídeo.Ele se levanta e vai até o local do tiro para certificar o que aconteceu e leva um susto com outro macuco que bate suas asas e desaparece no mato.

   Ele fica boquiaberto pela falha, mas por outro lado se consola de ter errado, pois o casal veio verificar qual seria o macuco intruso que estaria vindo a atrapalhar seu casamento.  

  Interessante  notar que muitos caçadores de campo que atiram voando, erram caça parada. Isto se deve, pois a arma de campo tem a coronha um tanto reta, justamente para levantar  o tiro e o caçador de mato usando essa mesma arma procura só mirar na cabeça e acaba errando o tiro, passando a chumbada por cima. O certo mesmo é usar uma arma de calibre  fino para a caça de mato e com coronha mais inclinada.

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