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Três sessentões acampados nas margens do Itiquira


Março de 2016

Nós, três sessentões, sabedores das agruras que iríamos enfrentar mesmo assim decidimos empreender mais uma pescaria de acampamento na beira do rio Piquiri, pantanal norte do Brasil.

Pescar no Rio Piquiri na abertura da temporada costuma sempre ser uma boa opção.

 Porém, nos primeiros dias de abertura o rio fica repleto de pescadores que sobem e descem, muitas vezes até intempestivamente disputando espaços.


Para termos mais sossego resolvemos empreender a pescaria após 10 dias da abertura, almejando assim mais sossego e tranquilidade, sem muito estresse.

Partimos então com uma picape repleta de tralha puxando uma carreta com uma grande caixa para gelo. Percorremos aproximadamente 1.250 km, dormimos num hotel próximo à estrada que liga o pantanal à rodovia, para sair na manhã seguinte onde teríamos pela frente 115 km de chão com muitos buracos e trechos alagados que durariam no mínimo cinco horas de percurso.

Já que entramos na estrada que ruma em direção ao pantanal, empenhamos em relacionar e apreciar as aves e outros animais que habitam aquele bioma.



Após 5 horas de estrada entrando na fazenda deparamos com uma vara de queixadas que rodeavam um cocho de sal.

  Dirigimos para nosso local de acampar, onde um rancho coberto com folhas de acuri nos esperava.

Ajeitamos as coisas em seus devidos lugares, preparamos o fogão, fritamos linguiça para um rápido almoço.


Voltamos para o acampamento e fomos arrumar nossos dormitórios. Os dois outros companheiros arrumaram seus colchões inflando ar, arrumando e colocando seus acortinados. Eu enchi meu colchão e quando fui procurar minha barraca me dei conta que não havia trazido. Minha única solução foi arrumar o colchão na caçamba da picape com capota, e estender um lençol na tampa. Foi o que fiz, mas, assim que me deitei não aguentei o calor, suava feito um cavalo. Quando passou da meia noite refrescou um pouquinho consegui dormir até às três horas, mas os pernilongos descobriram que na fresta da tampa inferior da caçamba havia uma entrada e aí não consegui mais ficar. Passei então para a cabina da picape e terminei a cansativa noite dormindo sentado no banco.

O dia amanhece, os arancuãs despertam com seus cânticos estridentes anunciando mais um dia de calor no pantanal.

Haja energia para três sessentões prepararem tudo o que necessitam para levar no barco: gasolina, apetrechos de pesca iscas vivas, minhocuçus, varas, remos puçá, ovos cozidos e lanches, cervejas refrigerante, gelo. É tanta coisa que desanima pescar.

Descemos o Rio Itiquira e, próximo onde ele joga suas águas para formar o Piquiri, nosso companheiro, com isca de coração de frango, na rodada fisga um bom pacú.  Aquilo deu uma reanimada. No mesmo local insistimos e conseguimos fisgar mais dois pacus de bom porte.

Descemos o Piquiri onde vimos uma Anta que brincava na água na margem oposta, mas logo se meteu no meio dos aguapés e foi para a margem oposta do rio.


Voltamos mais uma vez para o acampamento, enquanto preparávamos a janta com bife de boi frito, salada e arroz, íamos também saboreando cerveja gelada com aperitivo de queijo provolone do Mato Grosso comprado na estrada.

Assim que forramos o estômago, um banho reconfortante de chuveiro renovou nossas energias. Nosso chuveiro improvisado tinha água bombeada do rio com a energia fornecido por um pequeno gerador que também fornecia nossa iluminação. 

E é chegada a hora de dormir novamente, na caçamba não deu certo, então fui para o banco traseiro da picape. O calor era insuportável, suava feito louco, só consegui pegar no sono lá pelas tantas da madrugada.

A terça amanhece, a desesperança nos atingia, mas mesmo assim resolvemos subir o Rio Itiquira. Tentamos na rodada, poitado, em poços, nos baixios, nas águas mais fortes e nada de peixe.

Voltamos ao acampamento, fizemos algo para comer e passamos a preparar novamente para sair. Voltamos ao rio e encontramos com uma chalana sem turistas, ancorada na margem oposta. Conversamos com o Alemão que cuidava da embarcação e nos esperançou dizendo que à partir de quarta-feira a lua iria estar boa para pesca.


Quarta-feira, novamente toda a dificultosa e cansativa preparação dos apetrechos para uma descida, esta, a mais longa que iríamos empreender. Nossa ideia era descer rodando (pescando) até o poço do Jau e descer mais um pouco e tentar tucunarés na lagoa.

Descemos pescando e, no encontro das águas do Rio Corrente e do Itiquira que formam o Piquiri, uma anta atravessava o rio e chegou pertinho de nós com sua pequena tromba que apontava para a direita e esquerda tentando captar nosso odor. Assim que nos reconheceu, tratou de tomar seu rumo e desapareceu nas margens do rio.

Descemos o rio pescando e nada de peixes, chegamos ao famoso poço do Jau, estávamos com pouca corda para poitar e tentar um jau. O local é consagrado ao jau, centenas deles são fisgados todos os anos, mas há que ter muita prática, pois só para encontrar o buraco onde ele fica ´já é uma grande dificuldade, pois o rio modifica suas barrancas e o pescador fica sem referencial.

Mais abaixo atingimos uma grande lagoa e tentamos ali com isca artificial, mas nem sinal de tucunaré.


Tomamos nosso lanche numa deliciosa sombra na entrada da lagoa onde um jacarezinho veio nos visitar com algum interesse impresso em seus olhos.

Após nossa refeição subimos o rio e, no meio do caminho paramos numa pequena praia nos despimos e tomamos um belo banho de rio.  Nesse momento me questionei sobre a quantia de homens abastados que gostariam de estarem ali como nós tomando um banho de rio e não podem, isto é uma dádiva de poucos.

Chegando ao acampamento preparamos um fogo de chão com troncos de árvores do local e fizemos um churrasco com a saborosa, mas dura carne mato-grossense.

À noitinha fomos a uma ceva ali perto para pescarmos e, usando grãos de milho azedos como isca apanhamos algumas piraputangas e piaus.

No último dia passamos mais tempo brincando com os peixes da ceva, pegamos alguns piaus e piraputangas. A grande satisfação foi ver e ouvir a grande variedade de aves que vinham para a ceva pegar sobras de milho. Eram Cardeais, Pássaros -preto, Juritis, arancuãs, Trinca-ferros e outros que faziam sinfonia para nós enquanto pescávamos.

No dia seguinte arrumamos toda a tralha e partimos. Levamos para a cidade um empregado Negro. Quando falo com esse pessoal de fazenda pergunto sobre onças e sempre alguma coisa eles tem a contar. É sabido que naquela região do pantanal moram muitas onças.  O Ubaldo me contou que é encarregado de limpar os barracos de pescadores na beira do rio e toda vez que vai fazer o serviço passa um medo danado. Ele se preocupa muito com a retaguarda, dá uma varrida e já vira para trás, pois disse que a onça é traiçoeira e ataca pelas costas. Fiquei com pena dele,  imagine como sofre.

Finalizando, a viagem foi muito boa, ficamos isolados por uns dias convivendo com a natureza, a pesca não foi boa, mas o que pescamos foi exclusivamente mérito nosso.





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