Verdadeira caçada!

La se vão muitos anos que vi pela primeira vez na vida, na capa da extinta revista Troféu, um caçador pisando na neve, amarrado às suas costas uma grande galhada de Alce. Aquilo para mim foi motivo de muita admiração. O lugar parecia ser Alasca e o caçador exalava um profícuo sorriso, demonstrando claramente ter realizado grande aventura.

Nunca na vida imaginei que iria aventurar-me numa caçada de Alce. Não que faltasse vontade, mas pensava ser muito difícil e cara!

Até que, meu amigo Rodrigo Meirelles, morador em Traverse City, nos EUA, participou de uma feira de caça na cidade de Grand Rapids, feira esta, onde vários Outfitters dos EUA e de outros países ofereciam serviços de guias de caça e lodgesde caça.   Rodrigo conheceu Matt e sua esposa Connie, que possuem um lodge na Ilha de Terra Nova e Labrador, no Canadá, e se interessou pelo seus serviços.

Dias após, Rodrigo me ligou falando sobre as condições do pacote: seria um Alce e um Urso para cada caçador. A princípio me interessei, mas os pensamentos negativos tomavam conta de mim, pensava na cansativa viagem, no frio do Canadá, nas dificuldades que poderia enfrentar por lá, tudo isso me inundava de preocupações, pois minha idade já não é para aventuras ousadas!

Nessas horas o negativismo quer ocupar nossa mente, mas o instinto caçador ainda não abandonou o corpo cansado, e veio a decisão positiva em participar.

A data foi escolhida, assinei o contrato e enviei por e- mail para o Outfitter. O Rodrigo se encarregou de transferir para mim o indispensável sinal da reserva da caçada.

 Segundo uma conceituada revista de Caça de Terra Nova , o número de alces na ilha está estável, porém as galhadas não são muito expressivas. Cita também que em Terra Nova existem muitos Caribus, mas as licenças são difíceis e caríssimas. Essa informação deixou-nos bem animados para realizar a caçada!


Dia 18,

 Após muitas horas de voo e conexão no Panamá, chequei em Toronto. Esperei por mais de 6 horas por outro voo para Halifax. Horas antes passei recado para Rodrigo que eu havia chegado, mas como ele estava dormindo num hotel, não me respondeu. Duas horas e meia antes do voo me respondeu dizendo que já estava de saída para o aeroporto para tomarmos o voo à Gander, com conexão em Halifax.

Chegando em Halifax, tomamos um bimotor Bombardier turbo hélice, para um voo de aproximadamente duas horas e meia. Assim que chegamos em Gander tomamos um táxi, e alcançamos rapidinho o hotel reservado.

No Hotel o clima de caça já nos arrebata, pois o local costuma receber caçadores que passam pelo menos uma noite à espera dos Outfitters.

Noutro dia às 11:30 ,como combinado o Matt ,proprietário da pousada ,veio nos apanhar.

A viagem até a casa do Matt, que também é o lodge, durou cerca de três horas, sendo uma hora gasta para atravessar os 15 quilômetros, muito ruim de chão, que liga a rodovia à pousada, que só é vencida por veículos  traçados.

O “lodge”na verdade é a casa do casal servida com mais dois quartos. É uma casa de madeira ao estilo do Canadá, equipada com lareira, luz elétrica fornecida por geradores e energia solar. A casa é simples, bem organizada, a gente se sente bem confortável.

A área de caça é uma imensidão de terra denominada Concessão 25, com mata natural composta de árvores como “spruce pine”, pinus e “beech tree” além de outras vegetações rasteiras, lagos e muita água distribuída no solo. Essa área pertencente à Província de Terra Nova Labrador é concedida para extração de madeira e caça. A madeira é retirada aproximadamente a cada 20 anos.

 Na Concessão existem estradas estreitas internas que foram construídas pelos extrativistas de madeira, mas atualmente estão bem danificadas e só se pode trafegar com ATVs e Argo!

 Assim que chegamos à pousada, logo em seguida chegou um casal de americanos da Luziania, o homem foi piloto de F15 da força aérea norte americana e sua esposa uma senhora alta, simpática,  também caçadora inveterada . Eles vieram por terra dos EUA , percorreram dois dias e meio de caminhonete .

 Nesse mesmo dia, conferimos as armas com alguns tiros a um alvo a 50 metros de distância. Assim que terminamos o teste de tiro assinamos as licenças de caça que são vendidas pela província de Terra Nova. Nossa permissão era para um Alce, podendo ser um macho ou uma fêmea ou um bezerrão e um urso. As licenças de Alce são muito disputadas, tanto pelos moradores da província, como pelos caçadores de fora. A Pousada tem somente concessão de 26 licenças de Alces por ano. Portanto, assim que Matt fechar a temporada com 26 caçadores de Alces, a sua pousada não poderá receber mais caçadores de alce no ano. Nós éramos uns desses felizes caçadores!

0 primeiro dia era pura ansiedade, levantamos às 5 horas , após o café saímos às 6:30 para caça.  Rodrigo, eu mais o guia, embarcamos num Argo( veículo de 8 rodas todo terreno ), pilotado pelo guia Ronnie, rodamos uns 4 km onde deixamos o veículo e seguimos a pé pelo campo cravejado de água e difícil de andar. Logo afundei o pé num buraco e, lá se foi água dentro da bota de borracha. Não dava para avaliar o que  era pior, andar de Argo ou caminhar naquela buraqueira toda.  Inacreditável, via-se por todo canto trilhas batidas com rastros de alce e Caribu( rena do Papai Noel) , parecia que uma boiada havia passado por ali.  Isso fazia-nos mais confiantes em encontrar  Alce!

Nosso guia muito esforçado chamou por muitas vezes pelo Alce, emitindo som com a boca, e nada de resposta. Interessante era o ritual do Ronnie para chamar o Alce: quando ele achava um bom ponto, ficava em pé a mirar a vastidão, tirava o boné, passava as mãos na cabeça, depois esfregava as mãos e por fim punha- as na boca como se estivesse fazendo uma prece e produzia  um som meio anasalado como o de uma vaca mugindo. Logo em seguida acendia um cigarro e, recebíamos aquele cheiro bom da primeira tragada da manhã.

 Nada respondia, era um silêncio total, nenhum pássaro cantava, nada se movia, esporadicamente um avião cortava o céu. Naquela saída, a única coisa que vimos foi um casal de pássaros “spruce grouse”. Depois de muita canseira por ter carregado mochila pesada com muita roupa, pois a temperatura na saída estava 4 graus e às 10 horas subiu para 16 graus. Era um tal de põe roupa tira roupa, toma vento nas costas suada e assim íamos nós.

 Voltamos para o lodge, descansamos um pouquinho e continuamos a caçar. Fomos para outro lado, entramos em diversas picadas que apresentavam rastros e estrumes de alce, andamos bastante a pé e retornamos para a estrada onde encontramos o Matt com sua esposa em seus ATVs , tinham ido tratar as cevas de ursos. O Matt falou para Ronnie que havia visto rastros recentes de alce logo ali na frente. Com o Argo partimos, o Ronnie logo achou o lugar onde cruzaram a estrada, adentramos com o Argo quebrando vegetação. Deixamos o veículo e  seguimos a pé até alcançar um pequeno morro. O Ronnie, escalou o morro antes que nós e justamente na sua visão frontal deparou com Alces, virou para trás, em total desespero  falou que havia um big bull e ordenou que atirássemos! Nossa, aquilo transformou-nos anciosos sem controle, ao municiar a Savage  .270 enroscou o ferrolho,tudo por conta da ansiedade, o Rodrigo com sua double 9x74mm, também levou a arma na direção . Mas o casal de alce estava a mais de 200 metros e começaram a correr. O macho era enorme, parecia um grande Eland, mas infelizmente, além das armas estarem reguladas para 50 metros o guia foi muito ansiado. Atiramos nos animais, sem sucesso! Se ele tivesse mais calma, poderíamos apoiar em algo e atirar com mais certeza, mesmo que longe. Tiro sem apoio a 200metros com bicho correndo não é fácil. Nós não carregávamos bipé, Canadá é completamente diferente de África, ninguém carrega nada pra você!  Foi lindo de ver os belos animais! Comentei com o Rodrigo que aquela poderia ser a única chance de ter visto os Alces. A oportunidade de atirar foi-se, não havia como perseguir os animais, eles sumiram na mata! Isto é a verdadeira caçada, aquele momento único, escapou e tudo acabou. A mesma sensação passa um leão quando, mimetizado na savana, está  à caça de um antílope e, de repente algo dá errado e tudo se perde!

Dia 19


Pássaros apareceram para comer carne com ossos deixados na ceva. O tempo estava nublado, prometendo chuva, o vento leve penteava suavemente as folhas das árvores. Sentado sem apoio nos pés, as costas começaram a doer, encostei-me num tronco, a dor só trocou de local . Assim ia alternando as posições e sentindo dor aqui e depois acolá. 


Assim que atingimos a estrada, encontramos com o Matt acenando que o casal americano havia abatido um Big Bull, e que nós deveríamos voltar de ATV, pois o Ronnie e seu inseparável machado teria que ir ajudar a destrinchar o Alce no local.

A noite foi de comemoração e congratulações ao casal por ter abatido um belo Alce.

Dia 20

A manhã foi inaproveitável, não por conta  do tempo  que estava ruim com chuva rala, mas porque os guias levantaram tarde pois ficaram até às 3 horas da manhã lidando com o Alce abatido pelos americanos. Após o lanche, pois no lodge não há almoço,só café da manhã e jantar, saímos novamente de Argos e fomos a um local próximo. A concessão 25 do governo para exploração de madeira e caça é inóspita, entramos no mato com o Argo, atravessando pedras agua, derrubamos pequenas árvores. O tal do Argo ,é incrível, atravessa qualquer local . O duro é aguentar os trancos, pois ele não tem molas só os pneus bojudos que absorvem parte dos impactos. Sempre vinha em mente o que era pior, andar de Argo, ou a pé pelos alagadiços e pauleiras.  Como sempre fazia,o guia procurou por locais abertos,  pois são os locais onde se tem chance de ver os animais. Dedicamos por meia hora ou 40 minutos cada  local aberto, não se via um animal, nenhum poste de eletricidade, só barulho do vento a balançar as folhas. Por diversas vezes  Ronnie chamou os alces com a boca , e nada de resposta!

Quinta feira,

Saímos às 6:30 da pousada embarcados no Argo, rodamos por uns 40 minutos pela estrada de cascalho em direção à entrada da concessão. Numa baixada onde atravessamos um pequeno rio, vimos três caçadores naturais do Canadá que possuíam licença  para um Alce e um Urso. 

Chegando ao local pretendido, o Ronnie entrou pelo mato com o Argo . Ele parecia não ter nenhuma pena do veículo, atravessou pauleiras, brejos, derrubou pequenas árvores, quase tombou-o numa beirada de córrego. Deixamos o veículo e caminhamos cerca de um quilômetro, chegamos a um pequeno monte de pedras onde se podia ver uma imensa área limpa, creio eu, aproximadamente uns 20 km quadrados onde podíamos vasculhar com binóculos. Ficamos ali observando atentamente por todos os lados ,o Ronnie chamou Alce por diversas vezes ,mas nada de resposta. Ou eles estavam surdos ou não estavam por ali. O vento cortante e frio fazia com que abrigássemos em lugares do monte onde apanhássemos menos vento. Nenhum ser vivo  se mexia, só as folhas das árvores embaladas pelo vento ,  nenhum som se ouvia. Nenhum pássaro cruzava o ar, em nossa frente só aquela imensidão de verde, troncos secos e pedras. Nesses momentos de solitude, os pensamentos minam nossa cabeça:  se houver qualquer coisa com o guia, ficaremos perdidos, pois não vamos saber por onde sair daqui. Realmente o momento é de muita reflexão e de angariar forças físicas e psicológicas para enfrentar uma aventura dessas.

 No jantar do dia anterior a Connie fez uns filés de lombo de Alce grelhado, que ficaram saborosíssimos. Fez também o coração do Alce recheado e cozido. Na hora não gostei muito, preferi os filés que estavam incomparáveis. Como sobrou muitas fatias do coração de Alce a Connie colocou de lanche. Os lanches que sempre eram nosso almoço, constava de um lanche de pão de forma, uma sobremesa pequena e uma barra de cereais,  mas naquele dia a Connie colocou também num “bag zípper”uma fatia de coração que havia sobrado.

Quando foi a hora do almoço, pensei: não vou comer o coração, pois não havia apreciado. Então comi o lanche, a sobremesa e depois a barra de cereais. Com aquele frio a fome bateu e sobrou a fatia de coração. Não teve jeito, tive que comer a fatia. Querem saber:  nunca comi coisa tão saborosa igual aquele coração. Vejam o que faz a fome!

Na volta o Argo teve um  problema no rolamento de uma das rodas, o Ronnie tentou retirar a roda, mas a chave era pequena e não dava o torque necessário. Falei a ele que no dia anterior havia no assoalho do Argo uma chave em cruz e disse “Cross wrench”, e o Rodrigo de imediato me corrigiu, aqui não se diz chave em cruz e sim “lug wrench”. Aprendi mais uma!

 Seguimos devagar com o rolamento totalmente quebrado. Na volta o casal  de americanos, mais o guia nos atravessaram de ATVs . Logo na frente o guia deles viu um urso atravessando a estrada e voltou para avisar o Rodrigo. Este pegou sua Double sobreposta e deu alguns passos à frete, mas o Urso adentrou no mato e não houve como atirar.

Sexta

O dia amanheceu cheio de serração e a temperatura era zero graus. O pensamento estava voltado para os alces , já que a temperatura baixou e segundo  disseram, seria melhor para deparar com Alce. Saímos desta vez em dois ATVs o Rodrigo pilotando um e eu na garupa do Ronnie.  Tomamos  o lado esquerdo da pousada. Passamos por diversas vezes  abaixados  pela vegetação que fechava a estreita estrada. Vasculhamos várias áreas abertas mas, nada vimos a não ser Caribu.Deixamos o local por volta de duas horas e voltamos a pousada descansamos, comemos nosso lanche. O Ronnie teria que levar sua picape na estrada para sua esposa que iria  chegar à pousada, então fomos, o Rodrigo e eu de ATVs, percorrer  a estrada  até encontrar a pista. Chegando lá, Ronnie deixou os ATVs e pegamos a estrada com sua picape e fomos para um outro lugar . Deixamos a picape perto de um velho ônibus escolar, usado por pescadores como rancho e seguimos à pé para um alto morro de pedra. Permanecemos ali observando um grande vale cruzado de rastros de Alces e Caribus. O vento soprava, mas não forte ,estava  um pouco frio. A visão não cansava de percorrer o vale coberto de capim e matas em redor. Nada se movia, nem um pássaro voava nem cantava. O Ronnie usou diversas vezes  seu aparelho de chamar alces, mas nada de resposta. Eu usava um monóculo do rodrigo e vasculhava tudo . De repente ouvi um barulho à minha esquerda. Murmurei para Rodrigo que estava vindo algum bicho. Ficamos atentos, mas era um caribú macho de pequena galhada que passou despreocupado e sumiu na vastidão de terra. Ficamos ali por mais um tempo, o sol começou a baixar e partimos de volta. Na volta de ATVs, passamos por pontos convidativos de se deparar com alce, mas nada! Quando estava quase escurecendo vimos um grande urso ao longe que atravessava a estrada. Não houve tempo para o Rodrigo preparar para atirar, ele se foi pelo mato. 

Sábado

Ainda nos restava uma parte da manhã. Saímos cedinho e fomos para estrada de ATV. Percorremos alguns pontos de visão , Ronnie usou o gravador de chamado de Alce , mas nada . Voltamos para o lodge , arrumamos  as coisas , tiramos fotos despedimos do pessoal e tomamos a estrada com o Matt para o hotel em Gander. Final da caçada!


No início da última noite fizemos uma despedida triunfante em Gander, fomos jantar no Jungle Jim´s Eatery. Homenagem ao Jim das Selvas que lutava contra os piratas e os traficantes de escravos. Comemos um belíssimo filé de carne bovina num ambiente totalmente alusivo à selva!


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