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Vinhaes- repórter que aventurou no Pantanal com Sasha Siemel

Há 82 anos, o repórter Ernesto Vinhaes, soube da chegada de um navio ao porto do Rio de Janeiro trazendo Sasha Siemel, aquele que iria participar com a comitiva do Theodore Roosevelt a uma expedição no Pantanal. Acompanhava Sasha uma imensidão de coisas, como: armas, livros equipamentos para acampamento e também seus 6 fox hounds .

Ernesto ficou muito interessado em participar de uma aventura com o Sasha, assim solicitou ao chefe do jornal “A Noite”, onde trabalhava como repórter policial, para participar como repórter da caçada com Sasha e Roosevelt. Tendo a anuência do seu superior, partiu para a preparação da aventura.

O repórter descreve o Sasha assim:” A voz do Sasha era pausada e de forte timbre metálico. Parecia um professor na cátedra quando conversava… eu estava diante de um poliglota notável. Ele falava o português, o inglês, o alemão, o espanhol, o russo e o letão, já que nascera na Letônia”.

No dia dois de junho de 1935, partiram da Central do Brasil de trem para São Paulo, depois tomaram na estação da luz outro trem até Bauru e, após, outro até Porto Esperança em Mato Grosso. Após essa

viagem cansativa foram para um hotel simples para esperar o vapor Fernandes Vieira, que levaria eles até Corumbá e após com o vaporzinho Guaporé até a Fazenda “Alegre” da companhia Brasil Land , Cattle&Packing Co. e seguiriam à cavalo até o acampamento de Sasha.

Sem muitas delongas, vamos ao que interessa: o capítulo 9 onde o autor descreve a caçada de uma onça, junto ao Sasha e Roosevelt.

UM URRO TREMENDO ESTREMECEU O BOSQUE

“Durava já cerca de três semanas a nossa permanência no acampamento da “Vazante” e no decorrer desse tempo não sessara no Pantanal o alarido da caça.

Nosso programa diário se resumia em despertar `as quatro da madrugada, limpeza pessoal, refeição de mate e bolachas, preparo da “matula” e encilhar dos cavalos para percorrermos horas e dias a fio, pelos campos imensos em busca de pegadas de onça. O cavalgar era incessante pelo Pantanal, a atravessar fundas lagunas a nado e a cortar a facão caminho pelos capões extensos, desprezando todos os obstáculos que a natureza exuberante dos sertões mato-grossense nos impunha implacável.

Mas de nada nos valiam esses esforços desesperados. O sol nascia e tornava a desaparecer, todo esse longo tempo, e nem sinal da onça, a rainha orgulhosa das selvas. Os caititus, tamanduás-bandeira, cervos e mesmo a bela anta que abatemos, o fizemos mais para evitar que os cães ainda perdessem tempo, pois eles ansiosos por carne fresca, insistiam em não largar,

Assim decorreram essas três semanas de caçadas, durante as quais, confesso, muitas vezes, intimamente, perdia as esperanças de encontrarmos onça. Só víamos sinais velhos, e longas horas pelo menos, da passagem da fera, e quando acontecia darmos com alguma batida recente, quando alegres sentíamos a esperança renascer em nós, eram os cães que falhavam lamentavelmente, perdendo o rastro. O mesmo não se verificava –como já disse anteriormente o coronel Roosevelt, Sasha Siemel, Manoel Ignácio, Curutúba e os outros caçadores, habituados a longas esperas. Eles, já afeitos a tais lidas, não estranhavam essa  falta de sorte e não demonstravam o menor desanimo ou cólera, levando todo o tempo a gracejar alegremente e sempre confiados na sorte. “Um dia da caça, outro do caçador” -repetiam.

E, afinal, surgiu o doa do caçador. Uma onça, belo macharrão que, havia já tempo, vinha zombando dos nossos esforços, enganando cães e cansando caçadores, foi abatida, com um tiro certeiro e fulminante no olho direito, pelo coronel Roosevelt, Nesse dia, o famoso caçador “yankee”, que antes sempre recusava tomar parte na ingestão coletiva de uma taça de Paraty, promovida pelo Tigreiro para, como dizia, dar mais ânimo, tomou também e dobrada, a sua ração de aguardente. O memorável acontecimento teve lugar com concurso de uma cadela com fama de boa onceira, pertencente a um índio amigo de Sasha lhe tomou emprestado, e que deveria encher a lacuna aberta pela deplorável atuação da maioria dos cães que formaram nossa matilha. “Busca Vida”, a velha cadela, veio e tomou parte na excursão, cujo êxito pudemos agradecer, sem dúvida alguma, a sua segura e experiente interferência. Era extraordinariamente feia essa cachorra, toda maltratada coberta de cicatrizes, além de quase cega dum olho. Quem a visse em estado normal receberia péssima impressão, e diria, sem hesitação, que nem um vintém desembolsaria por ela, lá no Pantanal onde tão elevado preço dos cães de caça. Mas “Busca Vida” demonstrou valer um tesouro. Como “Perfumado”, com a qual rivalizava em idade, ela se transformava aos olhos maravilhados quando seu faro delicado sentia o cheiro da caça. A velha cadela partia veloz, na batida, latindo nervosamente e contaminando com seu entusiasmo os cães novos que a acompanhavam e que não sabiam, ainda distinguir o rastro da onça do de outro animal qualquer, Partia como uma flecha e não atacava senão quando a fera perseguida acuava ou procurava refúgio nalguma arvore

Reconhecendo o valor de “Busca Vida”, no dia do nosso sucesso resolvemos solenemente, rebatizá-la, dando-lhe o nome paradoxal de “Beleza”

Eis como se desenrolou a memorável caçada: A caravana de caçadores deixou o acampamento pouco antes das cinco horas, quando ainda as estrelas brilhavam palidamente nos pedaços de céu que as ramagens das árvores deixavam entrever. A luz amarela da lua não fora substituída, ainda, pelos fulgores, cor de fogo, do sol que desponta no horizonte distante. Foi um cavalgar lento pelos campos, onde os pés dos pobres animais se arrastavam penosamente na terra pastosa e molhada, coberta de capinzal flexível ou de quadras verdes de aguapés, Os caçadores avançavam devagar e sonolentos ainda. Tudo em volta era silêncio, só perturbado pelo coaxar das rãs e o canto feliz dos passarinhos que despertavam. Andamos, assim, cerca de três horas, talvez no decorrer das quais a luz fraca da madrugada fora, gradualmente, substituída pelos clarões intensos de uma linda manhã de sol, quando os latidos curtos de “Busca Vida “nos sacudiram daquele torpor, A cadela erguera o focinho para o céu, seu latido recrudescera e ela ia seguir o rastro, quando a impediram Sanha e Manoel Ignacio, A batida era velha; tinha, pelo menos, três dias. Constituía, porém, eloquente demonstração da capacidade de “Busca Vida”, que descobrira um rastro onde os outros cães passariam, como passaram, indiferentes. A caravana prosseguiu. Não se pode seguir um rastro de três dias. Mas não passara mais meia hora, talvez, quando de novo se fizeram ouvir os latidos de “Busca Vida”, dessa vez mais insistentes, mais vivos e inquietos, a que não tardaram a fazer coro ruidoso os outros cães. E nada houve que pudesse deter a velha cadela. Saiu como vento, seguida por toda a matilha. Tinha razão: a batida era recentíssima; a onça dormira ali a noite toda e saíra pouco antes da nossa chegada, em busca da caça que lhe satisfizesse o apetite descomunal.

Examinado, o rastro revelou-nos valente macharrão, de patas largas, cerca de dois metros e meio de comprimento e que deveria pesar, pelo menos 150 kg. Começou, então, a perseguição. Foi um galopar exaustivo em certos pontos e cheio de espessa vegetação em outros, e que levou meia hora para cobrir cerca de três quilômetros, finda a qual cavalos e caçadores suavam

Em bica e os cachorros deitavam toda a língua pela boca. “Busca Vida, que dirigia a matilha a princípio, transferindo para os companheiros todo o fogo do entusiasmo que armazenava seu corpo velho e débil, foi, afinal, vencida pela natureza e entregou a liderança a “Fineza”. Logo após, porém, ladeando “Perfumado” e deixando para trás os cachorros mais novos, ela seguia, esgotando toda a seiva de energia que lhe restava no corpo mísero. Assemelhava-se ==era essa impressão ==a legítima estátua do cumprimento do dever dum cão de caça”. A imagem não poderia ser mais fiel nem mais comovedora.

Ao fim dessa meia hora de galopar furioso, no decorrer da qual estremeciam os ares os gritos roucos dos caçadores, gritos incessantes, que Fenimore Cooper não hesitaria em classificar como brados de guerra dos índios Sioux, e aos quais os latidos imprimiam sons dissonantes, chegamos à orla de uma pequena floresta, um dos inúmeros capões de que é coalhado o Pantanal. Já então ouvimos distintamente os rugidos surdos da fera perseguida e o excitamento dos cães tomava graduações mais e mais altas.

A onça está próxima! … pensamos. Cautela! Devíamos já avançar com mais vagar e prontos para qualquer eventualidade. O coronel Roosevelt empunhou sua magnífica “Springfield”; Sacha, o Tigreiro, ajeitou a zagaia, secundando por Manoel Ignácio e Curutúba; eu e os outros sacamos de nossos revolveres de grosso calibre, engatilhando-os.  Na atmosfera pairava um quê de infindável, a sensação do desconhecido talvez. Cada vez mais nos dominava a ânsia de ver o animal feroz que representava o perigo.

–Está lá! … Na árvore! …

Era Sasha , o Tigreiro que nos avisava. Seguimos a direção do seu dedo estendido e, um frêmito de sensação nos percorreu o corpo. A alguns passos de nós, quase à orla do bosque, um enorme corpo amarelo, salpicado de pintas negras, subia, lesto, num pé de “pateiro bravo”. Era a onça, soberana das selvas brasileiras, que assim procurava escapar à perseguição tenaz dos cães e dos caçadores. A fera se instalou num galho grosso e contemplou, por instantes, o nosso avanço. Depois irritada, moveu raivosamente a enorme cabeça e soltou um urro tremendo. O bosque estremeceu com o bramido selvagem, e eu—por que não confessar—não estava absolutamente calmo…

Foi quando o coronel Roosevelt apontou sua arma à fera e não mais retirou os olhos, receioso de que saltasse antes da aproximação dos zagaieiros. Caçador experimentado, ele teve a serenidade precisa para aguardar o instante azado para o tiro, o que, certamente, não faria um “marinheiro de primeira viagem”. Nesse interim, de rápidos segundos, o Tigreiro e Manoel Ignácio desembainharam as pontas das zagaias e tomaram posição. Si, por acaso, mal ferida, a onça saltasse, atacando, seria espetada antes do segundo salto.

Felizmente porém, foi inútil a precaução. Ao aviso de “ready”, o coronel Roosevelt disparou, mãos firmes a pesada arma. O projétil foi certeiro, atingiu a onça em plena cabeça, um pouco abaixo do olho direito, que vazou, não varando o crânio. Mortalmente ferida, a fera perdeu o equilíbrio e caiu pesadamente, ao solo. No mesmo instante os cães se lhe lançaram, raivosamente, sobre seu corpo quente e coberto de sangue.

A noite, a feliz caçada foi festejada com um lauto jantar de carne de onça, regado por legítimo Paraty nacional, preferido pelo coronel Roosevelt ao “cognac” que também tínhamos em estoque. A vitrola executou os mais modernos discos que 

Sasha trouxera do Rio e USA.

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