Voltando ao assunto


Voltando ao assunto de caça, coloquei um desenhinho que fiz baseado na capa do livro “Conselhos Velhos para Caçadores Novos”. Um livro escrito pelo já falecido há muitos anos, Padre Domingos Barroso, um português aficionado pela caça dotado de  dom inigualável para escrever. Aliás, os portugueses escreviam muito sobre caça,  já que caçavam antes mesmo do descobrimento do Brasil, e ainda escrevem até hoje não tão profusamente. A capa do referido livro mostra um desenho que foi visto num quadro numa espingardaria em Portugal e que leva o titulo de: “Chumbo com olhos não precisa de pontaria”. O desenho mostra um caçador com os olhos vendados e os chumbos dotados de olhos.O quer isso quer dizer? Se os chumbos tem olhos, então eles procuram a caça. Para que tenham olhos é preciso que a arma do caçador esteja interagindo com ele, i.e´, que caia direitinho com seu perfil físico.Assim apontando ela já acha o alvo. Mas, não é só isso, o balanceamento da arma os choques, a carga a velocidade e o tamanho do chumbo correto e os descontos de tiro. Assim sendo, verdadeiramente os chumbos adquirem olhos e vão buscar a caça.

Segue um trecho do referido livro:

TRAVESSURAS DE UM SUJEITO PACATO…

O chumbo é um cavalheiro de muito peso. De muito peso e de pouco juízo.

Conheço-lhe várias travessuras.

Vá, pois, o chumbo para a berlinda!

Entre os caçadores, há quem ,empregando-o,erre por de mais e por de menos:–os perdulários e os sovinas.

Os perdulários nunca estão satisfeitos com o número de bagos que podem enviar atrás de uma peça de caça.

Os sovinas,ao contrário,têm na cabeça o custo, em centavos, de cada um deles e nunca os lançam no cartucho sem que as lágrimas de Heráclito caiam um pouco sobre a sua sepultura.

Quem tem razão?

Em teoria, parecem tê-la os perdulários. Quanto maior for o número de bagos, mais larga será a roda do tiro, mais unida a sua composição e, portanto, maiores as probabilidades de se atingira a caça com os ferimentos suficientes para fulminá-la.

Um tiro de meio quilo de chumbo, mandado atrás de uma perdiz,far-lhe-ia tal cerco que a pobrezinha não teria outro remédio senão vir sentar-se à nossa lareira,em companhia das caçarolas.

Por vezes, seriam rebanhadas inteiras que, de uma só assentada, nos dariam a honra de jantar em nossa companhia.

Infelizmente, não há bela senão, O chumbo,quando em demasia e mandado a uma velocidade conveniente,obriga a pólvora a desenvolver tais pressões que as armas se acaso se aguentam, pelo menos se desconjuntam.

E os caçadores não ficam melhor servidos. As cargas fortes produzem recuos violentos. Os nossos nervos, ao fim de meia dúzia de sopapos,reagem instintivamente.

No momento de se premer o gatilho, os olhos fecham-se, o corpo estremece,como se  fora atravessado por uma corrente elétrica, e o tiro ou não parte ou vai para casa de mil demônios.

Só os nervos excepcionalmente sólidos podem aguentá-las.

Mas, ainda nesse casão, as duas vantagens pouco mais são que fumo evento.

Os bagos de chumbo deformam-se—e quem diz deformam-se quase diz:–inutilizam-se…—os bagos de chumbo deformam-se e esmagam-se pelo atrito de encontro aos canos da espingarda e pela resistência da inércia aos impulsos da pólvora.

Ora esta resistência cresce com o peso da carga e, portanto, com ele tem que crescer o número de bagos inutilizados.

Podemos, é verdade,atenuar o precalço atirando-os a velocidades inferiores:mas neste caso,tornamo-nos automaticamente os fornecedores de caça às raposas e milhafagem.

O mesmo se dá com as cargas mínimas ,quanto estas descem abaixo de certos limites.

Em consequência, seja qual for o poder inventivo da nossa genialidade,o melhor é acolhermo-nos sob as velhas e prudentes bandeiras do bom senso. Quem tem um calibre doze atira uma carga entre trinta a trinta e seis gramas de chumbo. Com armas muito sólidas pode atirar até trinta e oito.

Quem atirar menos compra uma dezesseis ou vinte.

Quem quer atirar mais compra uma calibre dez.

Não aconselho ninguém a descer qualquer outro grau no número dos calibres.

O homem moderno, para atirar cargas grandes, parece-me pouco abonado no comprimento das orelhas…

Outro problema. Chumbo mole ou chumbo rijo?

Pela eficiência do tiro, nunca pude observar nem os inconvenientes do mole nem as conveniências do rijo.

A questão, sob esse ponto de vista, não vale a tinta que tem gasto.

Mas há uma outra questão concomitante e essa, sim, que tem importância:–a questão de prudência.

O chumbo rijo tem facilidades de ricochete que o mole nunca conheceu.

Um caso do meu canhenho.

Caçava eu coelhos em pleno janeiro, em companhia de amigos experimentados.

Tocou-me guardar o fundo de uma aberta entre dois renques de urzes, aberta,com o comprimento de oitenta metros e o declive de cinco a seis por cento.

Em face,ao alto sobre uma parede,um companheiro e umas pastoritas que se entretinham vendo-nos caçar.

Um bicho saltou junto a mim e caiu fulminado, por esmagamento da cabeça,a cerca de doze passos.

Qual não foi,porém o meu espanto,ao ouvir uma das pequenitas berrar que nem uma cabra.

Have-la-ia atingido? Não era possível. Em primeiro lugar,além da distância que nos separava, havia o declive. Todos os bagos tinham que atingir o chão. A pequena ficava-me  mais alta que o alvo seis a sete metros.

Demais,eu tivera o cuidado de não premer o gatilho senão quando a direção dos canos me indicava em ângulo quase reto com o das pequenitas e do companheiro.

Pois, apesar de todos os impossíveis, a rapariga tinha um bago em cada braço e um outro no ventre, A explicação é que o chumbo era rijo e o terreno,apesar de lavrado,estava endurecido pelo gelo.

Et nunc rudimini—diziam os latinos. É preciso usar chumbo mole sempre que se caçam coelhos ou mesmo galinholas debaixo de arvoredo.

O rijo pode usar-se em tudo o mais, se isso nos dá gosto e não se torna pesado à algibeira.

E que número preferiremos?

Um velho amigo e caçador experimentadíssimo aconselhava-me a que no cedo, usasse escumilha.

Bons tempos esses em que as perdizes nos saltavam debaixo dos pés e, imitando o ribombo dos trovões,semelhavam  um pregão do fim do mundo.

E esse amigo pudesse dar,ainda hoje,a sua volta pelo Gerez ou pelo Larouco, ficaria espantado com os meus progressos.

Sabem enganar-nos nas revoadas; levantam a distâncias impossíveis; nem sempre o ouvido lhe acusa o ruflar da asa,e atingem velocidades maiores que as de ladrão batido pela polícia.

Chumbo miúdo? Boa vai ela!…

Mas também é preciso não nos as confundirmos com os lobos ou javalis. Eu prefiro o cartuchame carregado com o número seis.

É um chumbo universal. Tanto abate uma codorniz ou narceja como um coelho ou uma lebre. Não gosto de alombar com munições diferenciadas por muitos números diferentes.

Quando nos prevenimos com o número um ou zero, para abater um pato,é quase certo sair-nos uma narceja ou outra bicheza semelhante.

Todavia é absolutamente razoável que usemos nos dois canos  chumbos ligeiramente diferenciados.

A perdiz,no cedo,sete e seis estão bem.Sete no cano direito e seis no esquerdo. No tarde, seis e cinco,raras vezes o quatro.

Ao coelho cinco e quatro.

Claro, o primeiro tiro a partir é o do cano direito.

A razão é que os chumbos de maior diâmetro dão mais alcance e, paraq largo,melhor agrupamento.

Até os armeiros, estrangulando mais o cano esquerdo, os ajudam a concentrar-se nos dizem que essa é a ordem natural das coisas.

…Tão natural,pelo menos,como comer-se um velho perdigão bem assado sob uma albarda de presunto.

0 visualização

©2019 by RECARGAMATIC.